domingo, 4 de outubro de 2009

The Red Book: O Rubicão Particular de Jung





O historiador Sonu Shamdasani, coordenador do projeto Philemon Foundation ( http://www.philemonfoundation.org/), brinda a comunidade junguiana internacional com mais uma trabalho de inestimável valor: a publicação do, até então, inédito Livro Vermelho de Jung.
O livro será publicado em Outubro deste ano e faz parte do ambicioso projeto da Philemon Foundations em trazer ao público textos, seminários, cartas e escritos inéditos de Jung alcançando o incrível número de 30 volumes a ser incorporados às obras publicadas de Jung ( as Obras Completas possuem 21 volumes) num prazo de 30 anos.
O Livro Vermelho
Após o período de separação da relação intelectual com Freud, Jung atravessou um delicado e importante momento psicólogico que nomeou como " Confronto com o inconsciente". Foi durante a travessia deste Rubicão particular que desenvolveu algumas das suas principais teorias como inconsciente coletivo, os arquétipos, tipos psicológicos e o próprio processo de individuação. Jung também amplia o conceito de psicoterapia ao pensá-la não apenas como uma prática relacionada com o tratamento da patologia para poder ser considerada como um meio de reconexão com a alma e à recuperação do sentido da vida. No centro desse trabalho estava o lendário Livro Vermelho (Red Book). O livro vermelho é um in-fólio encadernado em couro vermelho e contém as fantasias escritas e pintadas por Jung mas sob uma forma e uma linguagem elaboradas, escritas em caligrafia gótica, à maneira dos manuscritos medievais. Embora Jung considerasse o Livro Vermelho, ou Liber Novus (Novo livro) ser um dos lugares centrais para trabalhar e compreender sua obra, ele permaneceu inédito até os dias atuais e não disponível para estudo e invisível para o público em geral. A obra pode ser melhor descrita como um trabalho de psicologia em forma literária e profética. É possivelmente o mais influente trabalho inédito na história da psicologia. Sua publicação é um marco que inaugura uma nova era para a compreensão da vida, da obra de Jung e dos estudos junguianos.
A biógrafa Deirdre Bair em seu livro " Jung- Uma biografia" comenta:
" Nele ( O livro Vermelho"), Jung trabalhou com desenhos generosos ilustrando suas fantasias, acompanhados de textos interpretativos escritos em tinta preta fina e uma caligrafia inventada por ele, que parecia uma mistura de gótico e irlandês", " uma caligrafia monástica de letras pretas que anotaram seus sonhos mais importantes desde 1913", todo ilustrado com " desenhos perturbadores, realmente malucos".
Segundo a biógrafa, escrever o Livro Vermelho e os Sete Sermões aos Mortos serviu a uma decisão muito importante para Jung, ou seja, à decisão de pôr fim aos anos de concentração em seu inconsciente e se envolver no mundo em geral. Diz a escritora: " As fronteiras da Suiça agora estavam abertas, depois de terminada a guerra, e o auto-imposto isolamento criativo de Jung estava chegando ao seu fim natural. Sua vida pessoal e pública sofreu uma guinada, quando seu principal objetivo passou a ser como dar às suas teorias uma forma que as tornasse acessíveis ao mundo."
Em " Memórias, sonhos e reflexões", Jung comenta:
" O livro Vermelho contém a maioria das mandalas que desenhei. No livro vermelho, tentei o ensaio ineficaz de uma elaboração estética das minhas fantasias , mas não o terminei. Tomei consciência de que não me expressara numa linguagem adequada e de que ainda devia traduzí-la. Assim, pois, renunciei a tempo à " estética" e me concentrei seriamente na compreensão indispensável.
(...) Senti a urgência de tirar conclusões concretas dos acontecimentos que o inconsciente me havia transmitido, e isto se transformou na tarefa e conteúdo de minha vida".
" A elaboração estética do Livro Vermelho foi-me necessária, por maior que tenha sido a irritação que às vezes me causou; através dela cheguei à compreensão da responsabilidade ética em relação às imagens. Esta atitude influenciou a conduta de minha vida de modo decisivo.
Compreendi que nenhuma linguagem , por mais perfeita que seja, pode substituir a vida".

Marcus Quintaes

Um comentário:

  1. "Compreendi que nenhuma linguagem , por mais perfeita que seja, pode substituir a vida".

    Beeeijos, Jung!

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