terça-feira, 13 de julho de 2010

Novo Curso de Extensão: Estudos Junguianos Avançados



Objetivos

A psicologia analítica desenvolvida por C. G. Jung é uma teoria psicológica de grande valor, capaz de fornecer subsídios conceituais para a reflexão e investigação de vários fenômenos da vida contemporânea.

As ideias de Jung, assim como as revisões e os desdobramentos realizados pelos autores pós-junguianos, percorrem uma variedade de temas que hoje se mostram extremamente relevantes, como por exemplo: a função criativa do inconsciente, o sonho como fator de auto-regulação da psique, a busca da diferenciação entre o conceito e os fenômenos da imagem e do símbolo, o exame dos complexos culturais que caracterizam as diferentes sociedades, a indissociabilidade entre natureza psíquica e cultura, os arquétipos como esquemas psíquicos formadores de subjetividades, o resgate da função da contratransferência na clínica das neuroses e a imaginação como faculdade primária da atividade psíquica.

Depois da experiência bem sucedida de dois anos organizando e ministrando o Curso de Extensão Jung e os Pós-Junguianos, decidimos aperfeiçoar o formato, modificando parte de seu conteúdo. As novidades aparecem sobretudo nos módulos 3 e 4, onde passamos a destacar a contribuições da psicopatologia junguiana e a discutir as relações entre psicologia analítica, arte e humanidades.

Com o objetivo de continuar afirmando a originalidade, potência e atualidade do pensamento de Jung é que oferecemos este novo Curso de Extensão Estudos Junguianos Avançados.


Módulos

1. Fundamentos da psicologia analítica de C. G. Jung

Jung e seu tempo. Uma breve história da psicologia analítica: os anos psiquiátricos, o encontro com Freud e a criação da psicologia analítica. A psicologia analítica depois de Jung. As principais escolas do pensamento junguiano na atualidade: clássica, desenvolvimentista e arquetípica. Os conceitos e proposições fundamentais da psicologia de C. G. Jung: complexo, arquétipo, símbolo e processo de individuação, o trabalho com sonhos, imaginação ativa e a alquimia como metáfora dos processos psíquicos.

2. As escolas de psicologia arquetípica e desenvolvimentista

James Hillman e a "revisão" da psicologia junguiana. O retorno à ideia de alma. Politeísmo e metáfora. Da metafísica dos arquétipos à fenomenologia das imagens. A base poética da alma. O retorno a Anima Mundi (alma do mundo). A Escola Desenvolvimentista e sua aliança com a psicanálise inglesa. A Psique da criança. As contribuições teóricas e clínicas de Michael Fordham. O autismo como desordem do self. Aproximação da teoria dos arquétipos com a teoria da evolução. Samuels e a psique plural.

3. Psicopatologia e prática clínica

Contribuições junguianas à psicopatologia e suas implicações sobre o trabalho clínico. Jung e a clínica das psicoses. O Resgate do sentido nas produções delirantes. Os deuses como doenças: a psicopatologia de uma perspectiva arquetípica. As estruturas do caráter segundo uma abordagem arquetípica e desenvolvimentista. A clínica junguiana da criança e do adolescente. Individuação na infância e o adolescente entre a Persona e a Anima. As relações entre neurociência e psicopatologia: avanço ou reducionismo?

4. Artes, humanidades e cultura

A relação da psicologia analítica com literatura, poesia e cinema. O diálogo de Jung com os trabalhos de Pablo Picasso e James Joyce. A cura da cisão estética-ética na Psicologia Arquetípica. Cinema como palco de complexos. Projeção psíquica e projeção fílmica. As viagens de Jung: um suíço em busca do “primitivo” e a Africa como um dos nomes do incosciente. A teoria dos complexos culturais como instrumental teórico para o estudo dos grupos e das nações.

CARGA HORÁRIA: 40 horas.

DURAÇÃO: 4 meses (aulas de 5 horas cada, aos sábados).

INÍCIO: 28 de agosto de 2010

CRONOGRAMA:

Agosto - 28

Setembro - 11 e 25

Outubro - 2 e 30

Novembro - 6 e 27

Dezembro - 4

HORÁRIO: das 14h às 19h.

LOCAL: Rua Jardim Botânico, 674 cobertura (Rio de Janeiro).

PÚBLICO ALVO: psicólogos, estudantes de psicologia e demais interessados.

INVESTIMENTO: quatro parcelas de R$230,00

INFORMAÇÕES PELOS TELEFONES: (21) 2543-5006 e (21) 9192-4430.

O curso fornecerá certificados para os participantes com, no mínimo, 75% de frequência.

Vagas limitadas.

Curso organizado e ministrado por:

MARCUS QUINTAES

Psicanalista junguiano, membro da International Association of Jungian Studies, membro fundador do grupo Himma: Estudos em Psicologia Imaginal (SP), coordenador de seminários sobre pensamento pós-junguiano e psicologia arquetípica em São Paulo e Rio de Janeiro. CRP 05/17406.

HENRIQUE PEREIRA

Psicólogo clínico, Mestre em Psicologia pela UFRJ, Doutor em Psicologia Social pela UERJ e professor de universidades particulares no Rio de Janeiro e Niterói. CRP 05/25011.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Cartas de James Hillman e Wolfgang Giegerich






É com grande prazer que compartilhamos com o público junguiano brasileiro estas cartas escritas por James Hillman e Wolfgang Giegerich para o Seminário organizado "Psicologia Arquetípica e Dialética: Encontros e rupturas entre James Hillman e Wolfgang Giegerich".
Estas duas cartas possuem extremo valor histórico, principamente, a escrita por James Hillman pois nela o autor relata, pela primeira vez, os pontos de aproximação e distanciamento de suas idéias daquelas defendidas por Giegerich. Em nenhum outro "momento" de sua vasta obra, Hillman foi tão íntimo, explícito e transparente em relação as diferenças entre a Psicologia Arquetípica e a Psicologia Dialética da vida lógica da alma como proposta por Giegerich. Por outro lado, a generosa e simpática carta de Giegerich também nos presenteia com suas afirmações sobre a importância da discussão e da polêmica no campo teórico junguiano como condição sine qua non para o desenvolvimento e avanço da própria psicologia analítica. Giegerich ratifica na carta sua posição de que o uso da mitologia tornou-se obsoleto para a psicologia analítica, isto é, vivemos em um nível lógico de consciência advindo da modernidade que não mais comporta o recurso aos mitos ou a " epistrophé" como sugere Hillman.

As trocas de idéias, concordâncias e divergências entre Hillman e Giegerich podem ser divididas em 4 momentos:

a) Em 1987, Giegerich publica na Revista Spring o texto " The Rescue of the World" , onde apresenta as idéias do filósofo Hegel e suas repercussões na teoria junguiana. Hillman, responde à este texto com seu artigo " Hegel, Giegerich and USA" onde confronta retórica X lógica, linguagem X pensamento, imagem X conceitos. Na mesma edição, Revista Spring 1988, Giegerich apresenta à sua réplica com o artigo " Effort? Yes, Effort", onde demonstra, através da lógica hegeliana, que o pensamento de Hillman não conseguiu escapar de um dos temas que mais procura combater: o oposicionalismo.

b) No Festival de Psicologia Arquetípica em Notre Dame -1992, Giegerich apresenta seu clássico texto " Matanças: O Platonismo na psicologia e o elo perdido com a realidade" ( o texto completo, muito maior que a apresentação oral feita no congresso, encontra-se no Volume 3 das Obras Completas de Giegerich cujo título é " Soul-Violence"). Hillman responde à provocação com artigo publicado na Spring 56, ano 1994, com seu texto " Once more into Fray /Uma vez mais na briga. E , finalmente, depois da negação do editor da Spring em querer dar mais espaço para a discussão na revista, Giegerich escreve " Once more, the the reality/irreality issue" onde finaliza sua divirgência com Hillman sobre a questão lançada em " Killings/matanças".

c) Publicação em 1999 de " The Soul's logical life" por Giegerich. Segundo o analista junguiano Michael Vannoy Adams, " o mais importante livro junguiano desde Re-Visioning Psychology". O livro é a mais consistente e articulada crítica à Psicologia Arquetípica feita por um pensador junguiano.

d) Na Revista Spring 2006 cujo tema é " Alchemy", Stanton Marlan publica o texto " From the Black sun to the Philosopher's stone" onde expôe as diferenças entre os pensamentos de Hillman e Giegerich tendo como pano de fundo o imaginário alquímico. Em 2008, no livro publicado em homenagem aos 80 anos de James Hillman - " Archetypal Psychologies: Reflections in honor of James Hillman" organizado pelo próprio Stanton Marlan, há um excelente texto de Wolfgang Giegerich entitulado " The Unassimilable Remnant - What is at stake? - A dispute with Stan Marlan" . Neste texto, Giegerich, responde detalhadamente cada posição apresentada por Stan Marlan em relação ao seu pensamento e ratificando as diferenças teóricas entre a psicologia arquetípica de Hillman e o pensamento dialético da vida lógica da alma.

Rubicão: Travessias Junguianas agradece o apoio e a confiança dos autores e espera com a publicação destas cartas-documentos contribuir, cada vez mais e sempre, com o alto nível do debate teórico em nosso campo de trabalho e criar condições para os novos rumos da Psicologia Arquetípica e Junguiana no Brasil.

Marcus Quintaes


(Tradução da carta de James Hillman para Marcus Quintaes)

DIVERGÊNCIAS (A propósito do Seminário Brasileiro sobre Giegerich/Hillman)


Tanto Wolfgang quanto eu, somos “filhos de Jung”. Ele é nosso ponto comum de origem no contexto de seu seminário. Mas há diversos “Jung” e muitos outros filhos e filhas. Não tenho bem certeza de qual seja a passagem ou a idéia em Jung que represente o ponto de partida de Wolfgang; o meu ponto de partida está no CW/6, onde Jung escreve que a fantasia cria realidade todos os dias, e onde o termo “imagem de fantasia” não deriva, diz ele, da referência a um objeto externo, mas é mais análogo a um uso poético.
Em outros lugares, Jung fala sobre os complexos, que constituem a estrutura da psique e são sua fonte energética, como “Deuses”. Isto me sugere que a questão toda da psique e, é claro, da psicologia também, não seja somente um tipo de mitologia, mas principalmente de que nossas vidas, tão profundamente enraizadas nos complexos, são melhor apreendidas através dos mitos, mitos definidos aqui como narrativas e/ou rituais onde humanos e Deuses interagem. Sei que deveria indicar aqui as citações correspondentes, mas esta é só uma carta, e estou ficando velho...
Quando imagino de forma mais ampla estas idéias de Jung, quando sonho o mito adiante, como ele também disse, vou para a mitologia, para textos nos quais os Deuses aparecem e para aqueles textos que melhor apreenderam a psicologia que chamamos de mitologia, tais como em Kerenyi, Otto e Vemant, etc. E, se levo a sério a fundamentalidade da imagem (cf. Lopez-Pedraza), devo então ir para Corbin e para Durand também, e especialmente para Bachelard, com o intuito de explorar a realidade tanto imaginal quanto psíquica, baseada na imaginação. Meu “Essay on Pan” (“Ensaio sobre Pan”) do começo dos anos ’70 segue esta direção.
Para mim, o logos da alma não é uma lógica, nem a alma em si é um logos. O logos da alma se apresenta em sua capacidade de dizer-se, de responsabilizar-se por si própria, de descrever-se, de contar sua verdade, e este logos não possui fronteiras (como Wolfgang já disse), e ele não é necessariamente só lógico ou sintáxico. Seu logos, o logos da psique, a psicologia, pode aparecer tanto através de imagens, como de pensamentos.
Gosto da idéia de Giegerich de que psique é (também) pensamento e fazer alma é (também) pensar. Em sua resposta a Marlan (no ensaio que generosamente contribuiu (p.204) ao livro editado por Marlan em minha honra), Giegerich escreve que nos pensamos em palavras da linguagem e não em imagens. Eu diria exatamente o contrário. As palavras são elas próprias, imagens. A história da linguagem de acordo com Barfield e Vico sugere que metáforas polissêmicas e analogias poéticas dão origem a conceitos denotativos e singularidade de significado. A linguagem não pode nunca nos libertar de sua mãe primordial, o sensorial, o natural, o físico, a implicação de uma anima mundi – uma alma no, e do mundo natural, mesmo que tal mundo natural seja sempre “não-natural”. Por ela ser psique também, ela pensa e imagina e possui uma inteligibilidade própria.
Devemos mesmo priorizar palavra sobre imagem ou imagem sobre palavra?
Entretanto, se fizermos tal movimento rumo a uma direção ou à outra, quais seriam as conseqüências? A imagem significa, em primeira instância, uma psicologia que é estética e imersa no cosmo. A palavra oferece, em primeira instância, uma psicologia “cortada”, como Wolfgang diz, de toda e qualquer noção física, a não ser a mente humana (senão onde encontrar as palavras, a linguagem?), ou divina como João anuncia no Quarto Evangelho.
Em nossa divergência, tanto Wolfgang quanto eu, não temos escrito muito sobre terapia nos últimos tempos. Eu faço somente uma “terapia de idéias” em público (textos e conferências), não mais terapia com pessoas individuais. Acredito que ele ainda mantenha sua prática clínica. Pode parecer que eu tenha desertado a prática terapêutica. Porém, como considero que os distúrbios da emoção estão sujeitos a uma re-ordenação através da imagem (o “espectro” de Jung, CW/8), e que uma imaginação perturbada pode ser curada pelo mito, como Vico sugere, eu acredito que estou continuando a fazer terapia.
Uma grande divergência diz respeito a como olhamos para a história. E aqui, Marcus Quintaes, eu me dirijo tanto a você, quanto a Wolfgang. Quando se olha para o meu trabalho pelas lentes da cronologia, é então possível descobrir ali algo do início, do meio, tardio, etc. caindo assim na idéia de progresso e regresso, desenvolvimento, bem como conflitos internos entre uma assim chamada “fase” e outra, quer seja ela anterior ou posterior. Então, sempre que aparece em um texto algo diferente daquilo contido em outro texto, tenta-se conciliar este algo como retração ou correção. Entretanto, se olharmos para os trabalhos escritos pelas lentes da imagem, como se fossem quadros ou peças musicais, então eles podem diferir um do outro sem a necessidade de preencher a idéia de consistência cronológica. Cada peça musical composta (digamos, por Villa-Lobos) é única e se sustenta e justifica por si própria, tem sucesso ou fracassa da forma como ela é, e somente se conecta com aquilo que veio antes ou depois a partir de uma perspectiva “externa”. Em uma retrospectiva, quadros (digamos, de Picasso), mesmo quando expostos de sala em sala em ordem cronológica, “utilmente” enriquecidos por textos biográficos na parede, continuam, apesar de tudo, “cada um, um”. Qual a razão de se olhar para eles através de um olhar genérico, alheio ao pintor – e aos quadros?
Esta abordagem, digamos assim, imagística pode também ser aplicada ao estilo de ataque de Giegerich. Imagine-o usando uma faca como paleta, lixas, pinceis duros e pinceladas pretas, espessas e pesadas, p,ara cimentar diferenças, para quebrar convenções. Pense nos começos de Stravinsky, Shostakovich. A agressividade pode ser uma necessidade retórica; de forma que suas devastações de Freud e Jung, ou de mim, não devem ser tomadas literalmente como desagradáveis ou ruins a nível pessoal.
Eu realmente penso que Giegerich possui uma percepção apurada da história, e que ele percebe o passado como algo que pode ser, ou que já foi, por assim dizer, vencido, ou pelo menos, superado (aufgehoben). Penso que ele dá passos cronológicos, não somente passos lógicos, – apesar de que ele parece parar em Hegel. O meu trabalho, bem como o de Jung para Wolfgang, pode ser denominado de pré-Hegeliano, mais do que simplesmente não-Hegeliano. Portanto, a posição de Wolfgang, quando afirma que Jung parou no tempo e que eu sou um nostálgico e um escapista do presente momento histórico real, é justificada e pertinente. Vejo uma confluência de lógica e temporalidade em minha compreensão de seu pensamento. Teria ele uma tendência a literalizar o tempo e a história? Minha tendência é imaginar o passado mais como aquilo que Agostinho chamava de memória – a saber, imaginação deitada no tempo passado. “O passado”, dizia William Faulkner, “não está morto. Não é nem mesmo passado”. Vou ao passado para sementes e ganchos. Retiro dele o que preciso, ignorando geralmente sua “história”. Desta forma, sou tanto um classicista quanto um romântico.
Tenho menos certeza, creio eu, do que Giegerich quanto a um movimento dialético em frente no pensamento humano. Sabe, Wolfgang considera os mitos clássicos obsoletos. Não estaria ele aqui pensando a) temporalmente, b) literalmente, c) positivisticamente? Os mitos não são obsoletos para as artes, que ainda bebem em sua fonte e nas quais eles ainda aparecem. A própria categoria de “obsoleto” baseia-se em um literalismo temporal. A fuga do determinismo temporal é um dos anseios de muitos de meus escritores favoritos – incluindo Jung e seu trabalho sobre sincronicidade. Para Plotino, é o tempo que está na alma (é um fenômeno psicológico) muito mais do que a alma no tempo.
Marcus, por que olhar para o meu trabalho em estágios? Lembra da observação de Picasso? “Eu não me desenvolvo, eu sou”. O tempo não muda as figuras e os padrões básicos de um tapete, os temas dominantes que recorrem e nos perseguem vida afora. Por exemplo: o meu lidar com o Dionisíaco já está presente, apesar de não nomeado, em meu livro de 1960, Emotion; bem como na sublime e terrificante atração pelo Mundo Subterrâneo em “Suicide and the Soul (1964) (Suicídio e Alma”); em Dream and the Underworld (Dioniso, Hades, Plutão); nas Conferências de Eranos (1969) onde ele é o movimento conclusivo final; e, é claro, em A Terrible Love for War. Outro exemplo: minha devoção à anima aparece tanto no livro chamado Anima, em “Betrayal” (“Traição”), nos ensaios sobre prata e mercúrio, no capítulo sobre anima em Insearch (1967) (“Busca Interior em Psicologia e Religão) e nas conferências mais recentes sobre Afrodite. Estes temas são constantes saturnais, visitados e revisitados em momentos diferentes, para ocasiões diferentes. Eles não progridem. Nenhum deles foi resolvido. Qual a finalidade de tentar organizar suas leituras seguindo a flecha estreita do tempo? O que me faz lembrar a predileção de Wolfgang por esta metáfora (o Wurf, o impulso para a frente da ponta da lança). Cuidado ao embrulhar uma variedade de produtos em uma única embalagem. É preciso ter claras as categorias usadas para embrulhar. Não use papel jornal. David Tacey e Andrew Samuels, por exemplo, me embrulham numa simplificação jornalística. Mas, às vezes, a coisa embrulhada resiste em ficar dentro da caixa, especialmente se conserva certa energia animal inata que esperneia e se debate, não querendo ser embrulhada em hipótese alguma

Bem, agora, para onde nossas divergências nos conduzem? Sem dúvida, como você aponta, confesso ser movido e inspirado por uma energia qualitativamente marciana. Mas então, querendo ou não, isto forçosamente envolve Venus – e com Venus vem todo um estilo de jogos de sedução e artimanhas, de que Giegerich corretamente me acusa, em meus textos e na psicologia arquetípica. Sim, Ginette Paris também apontou isto há algum tempo, o meu trabalho apóia, representa e é insuflado de paixão por anima, da mesma forma que o trabalho de Wolfgang deriva – deliberadamente, brilhantemente, radicalmente e exaustivamente de e com animus.
Provavelmente, Wolfgang e eu temos uma relação divergente com o velho Saturno. Eu tento render-lhe homenagem explorando exaustivamente não somente “o senex”, mas principalmente tentando evitar que ele devore meus pensamentos mais profundos até que só reste deles negatividade. Ás vezes, eu tenho a impressão que Wolfgang tornou-se um devoto de Saturno. Quando leio seus ensaios, sua visão saturnal do mundo contemporâneo, a ênfase no tempo, na ordem sintáxica, na negação, e as imagens de faca, bomba, e Actaeon saqueado, ou a própria idéia de sublação, parece haver uma obliteração, um absolutismo, uma hegemonia devoradora, que engole tudo. Manter-me em meu próprio caminho e longe do dele, também é contra-fobico de minha parte. Não quero meu trabalho engolido na resolução universal da lógica Hegeliana. Anima deve permanecer parcialmente “inalcançável”. Assim, eu lhe pergunto, o que invalida a sedução como método psicológico? Até os Sofistas e seu sofismo desenvolveram uma psicologia e eles eram mestres esmerados.
O que há de errado em erodir categorias com a finalidade de despertar a ambigüidade do intelecto? O que há de errado com uma retórica velada, com o oferecer a promessa de uma nudez clara, distinta e conclusiva, à qual, de fato, nunca se chega; o que há de errado com floreados, excessos, rasgos de emoção, o que há de errado em desaparecer (como Dioniso) quando sofremos um ataque? (Penso que Walter Otto conta muitas estórias sobre o desaparecimento de Dioniso ao sofrer uma ameaça, inclusive indo até as Musas(!) e desaparecendo nas profundezas do mar.
Ao longo destes últimos dez, ou mais, anos, tenho sido frequentemente impelido a responder para Wolfgang. Ele é um amigo de longa data, e tenho falhado em honrar esta amizade com uma resposta séria a seus esforços extraordinários. Havia dois obstáculos. Em primeiro lugar, me parecia que – para fazer-lhe justiça – teria que me envolver em um esforço grande demais: dominar argumentos, reler seus textos mais antigos e manter-me atualizado sobre os mais recentes, explicar minhas palavras e intenções. No fundo, eu sei que este tipo de resposta não se faz necessária, visto que ele compreendeu claramente aquilo que escrevi. Não precisa defesa ulterior.
Qualquer que fosse minha resposta, isto nos deixaria exatamente onde estamos: amigos que divergem.
Em segundo lugar, confesso meu sentimento de que uma resposta representaria uma distração do fluxo contínuo de coisas que eu queria iniciar ou completar. Talvez, Marcus, você precisaria saber que eu nunca respondo para comentaristas, nem argumento com críticos, apesar de tentar digerir suas críticas. Posto eu ser tão arraigadamente um “homem de Marte”, uma resposta significaria ou uma defesa ou um contra-ataque, e eu prefiro evitar os desafios a um combate. Prefiro imaginar.
Responder significa instalar oposição – tal como o seminário que você está propondo, para o qual envio esta carta. Entretanto, oposições – a menos que você as imagine de forma literal como tais, também podem ser imaginadas como caminhos divergentes. Seguimos por caminhos paralelos e nos envolvemos com a geografia dos locais pelos quais passamos, de formas diferentes.

Você sabe, tenho me debruçado sobre o “oposicionalismo” em muitos de meus textos, achando-o extremamente tóxico no pensamento sistemático de Jung. Wolfgang também tem trabalhado o assunto, debruçando-se sobre e através do oposicionalismo da herança Cartesiano-Kantiana, com a idéia de sublação e da dialética Hegeliana. Não há argumentação aqui. Além do mais, argumentar é uma modalidade de animus que, como Wolfgang deixou muito claro, não é a minha modalidade.

Vamos concluir com um sorriso.

James Hillman Thompson, CT 2008



Aos participantes do Seminário sobreJames Hillman e Wolfgang Giegerich no Brasil


Do outro lado de um oceano e do hemisfério norte para o hemisfério sul, gostaria de enviar minhas saudações aos participantes deste seminário e minhas congratulações a seus organizadores, por sua idéia maravilhosa de iniciar este projeto.
É tão importante que debates teóricos em nosso campo comum de atuação venham acontecendo, pois somente desta forma podemos manter a psicologia viva.
Como vocês provavelmente devem saber, no início de meu trabalho psicológico, o novo élan e a nova vida que James Hillman levou á psicologia Junguiana tiveram forte impacto sobre mim, sendo que trabalhei em cooperação com Hillman durante muitos anos. A partir de dado momento, meu pensamento e o dele começaram a se afastar e tomar direções ligeiramente diferentes, apesar de continuarmos conectados por um interesse comum e apaixonado pelo psicológico, que sempre compartilhamos.

Por volta do final dos anos ’80 me pareceu que Hillman, e não eu, tinha se afastado de algumas de suas posições anteriores, em uma direção que não me foi possível seguir. Posteriormente, quando comecei a desenvolver cada vez mais meu próprio trabalho, eu também comecei a mover-me em uma direção que, desta vez, Hillman não podia aceitar. Como não desejo antecipar aqui aquilo que será a tarefa de vocês todos discutir neste Seminário, não entrarei em detalhes. Mas gostaria de salientar pelo menos um dos pontos críticos, que diz respeito à noção de alma objetiva.

Parece-me que, enquanto continuarmos a abordar os fenômenos psíquicos com idéias específicas em nossa mente a respeito do que a alma é, com um sentido mais ou menos fixo daquilo que “tem alma” e “não tem alma”, estaremos operando a partir de um pré-julgamento subjetivo. Só podemos fazer plena justiça ao conceito de psique objetiva se podermos reconhecer que a própria “matéria original”, cada matéria original, possui em si mesma tudo de que precisa, até mesmo sua própria “definição” de alma.

Não devemos aplicar nosso sentido de alma aos fenômenos, mas devemos, muito pelo contrário, permitir que tais fenômenos nós ensinem o que alma significa, em cada caso de novo, em cada contexto concreto. Desta forma, não deveríamos importar para a psicologia sentidos fixos para o termo alma, nem categorias sem tempo (i.e. “os deuses”) de uma fase cultural específica da vida da alma, como, por exemplo, ver o mito Grego pelas lentes de um neo-Platonismo tardio.
É a própria alma que decide o que e como ela é em cada período histórico, não nos. A alma é viva e ela é Vida. Ela é livre para reinventar-se repetidas vezes ao longo de sua história. Este tipo de atitude permite que possamos ver a alma atuando desde através do fenômeno arcaico do sacrifício de sangue até através da moderna civilização tecnológica, fenômenos estes que – de outra maneira – poderiam nos parecer “sem alma”. E, por outro lado, isto não nos permite falar de Zeus ou Afrodite no contexto de nossa vida moderna.
A alma é sempre a alma do e no real, naquilo que, em dado momento, tem sido in via ejectum. A tarefa da psicologia é libertar a alma, o espírito Mercúrio, aprisionado no real. Em última análise e acima de tudo, libertar a alma significa libertar também sua própria definição de si mesma.

Devido ao compromisso que assumi para com a psique objetiva, dedico-me mais à “matéria” e seus conteúdos do que à nossa retórica, estilo, etc. ao falarmos sobre “a matéria”. A retórica torna os textos sedutores mas, com grande freqüência, muito mais sedutores “para o ego” do que para a própria alma. Quando se trata de estilo ou forma, meu interesse está na forma lógica interna dos fenômenos psíquicos, sua “sintaxe” e seu status.



Berlim, 23 de setembro de 2008 Wolfgang Giegerich

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Inscrições abertas para nova turma do Curso de Extensão Jung e os Pós-Junguianos



(Clique na imagem acima para aumentá-la)

Estão abertas as inscrições para a quinta turma do Curso de Extensão Jung e os Pós-Junguianos, organizado pelo Rubicão, pelos telefones 2543 2006 e 9192 4430 (falar com Marcus ou Henrique).

Veja o conteudo dos módulos abaixo.

Módulos:

1 - Fundamentos da Psicologia Analítica de C.G.Jung
Uma breve história da psicologia analítica. Jung e seu tempo: os anos psiquiátricos, o encontro com Freud e a criação da psicologia analítica. As principais escolas do pensamento junguiano na atualidade: clássica, desenvolvimentista e arquetípica. Os conceitos e proposições fundamentais da psicologia de C.G.Jung: complexo, arquétipo, símbolo, imagem e processo de individuação, alquimia e a metáfora dos processos psíquicos.

2 - James Hillman e a Psicologia Arquetípica
James Hillman e a "revisão" da psicologia junguiana. O retorno à idéia de alma. Politeísmo e metáfora. Imagem e imagem arquetípica. Psicopatologia Arquetípica. Anima Mundi. A base poética da alma. Personificar e ver através. Código do Ser e a Força do Caráter. Sonhos e mundo subterrâneo.

3 - A Escola Desenvolvimentista de Londres
A Escola Desenvolvimentista de Londres e sua aliança com a psicanálise inglesa. A Psique da criança. As contribuições teóricas e clínicas de Michael Fordham. Aproximação da teoria junguiana com as modernas teorias evolutivas e etológicas. Jung e Bowlby- A teoria do apego. O autismo como desordem do Self. Arquétipos, teoria da evolução e psicopatologia. Fordham e o diálogo entre a psicologia analítica e a psicanálise inglesa.

4 - O Pensamento Pós-Junguiano na atualidade
Alguns dos principais temas trabalhados pelos pós-junguianos na atualidade. A contribuição de Wolfgang Giegerich e a vida lógica da alma. As estruturas do caráter segundo N.J.Dougherty e J.West. Os complexos culturais no cenário contemporâneo. Novas direções na clínica pós-junguiana.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Seminários Junguianos em São Paulo

Divulgamos os Seminários Junguianos coordenados por Marcus Quintaes em São Paulo - 2010

Seminários Junguianos -2010 -


1 - O Retorno para a clínica: Do " Professor" Jung em direção ao " Doutor" Jung

A biógrafa Deirdre Bair em seu livro " Jung: Uma biografia" revela que durante os meados dos anos 20 e início dos anos 30, Jung foi cada vez mais, abandonando o seu interesse na análise individual para desenvolver a sua teoria psicológica e, com isso, voltando-se para os problemas psíquicos gerais e as correspondências históricas.
Cito Deirdre Bair:

" Em vez de escrever o histórico dos pacientes como meio de estabelecer modelos de tratamento, ele agora queria se concentrar nos arquétipos do inconsciente coletivo".

Durante este período, Jung era considerado mais como um professor que médico, o que provocou uma mudança silenciosa e discreta em seu título, ou seja, o " Dr. Jung" tornou-se "Professor Jung" pelo resto da sua vida.
Este Seminário pretende seguir a direção oposta. Nossa intenção é refazer o movimento em seu sentido contrário a fim de resgatar os princípios clínicos da psicologia analítica. Neste sentido, queremos o " Doutor Jung" e não o " Professor Jung". Nossa intenção é realizar uma pesquisa a fim promover o retorno dos fundamentos teóricos que sustentam o exercício da prática clínica junguiana.
Para este própósito, nos concentraremos no estudo dos textos relativos ao período onde a dimensão clínica de Jung foi preponderante e objeto de intenso e vasto reconhecimento internacional. Refiro-me ao que foi conhecido como " os anos psiquiátricos" da obra de Jung, isto é, ao "famoso e genial Dr.Jung" , o clínico das psicoses, particularmente, da esquizofrenia. É a partir da leitura dos textos escritos por Jung, na época em que atuava como psiquiatra, que nos basearemos para apontar que ali já se encontravam as sementes do que viriam a ser os fundamentos da clínica junguiana.
Jung aos 32 anos publicou sua importante e capital obra chamada " Psicologia da demência precoce" (1907) e um dos seus últimos trabalhos foi a apreciação de seus textos sobre a esquizofrenia ( 1957) quando contava com 82 anos de idade. São textos que agrupam observação clínica e experimentação e onde se defende , pela primeira vez, a tese de que todos os sintomas psicóticos podem ser compreendidos psicologicamente.
Nos deteremos em três aspectos fundamentais da atitude de Jung como psiquiatra:
A busca incessante de uma etiologia psicológica para as psicoses e seus sintomas
A importãncia das fantasias nas produções delirantes e alucinações
A relevância das funções do ego com as imagens no sujeito psicótico
A questão do tratamento psicológico das esquizofrenias
Refazer este caminho possui dois objetivos bastante claros e definidos: Queremos recuperar uma psicopatologia junguiana no modo como Jung a concebeu: "uma ciência que mostra aquilo que está acontecendo na psique durante a psicose" . Trata-se de recuperar a base histórica e conceitual dos princípios da clínica junguiana como também recuperar a potência do discurso teórico junguiano frente as questões da doença mental e dos desafios impostos pelas psicoses e seus sintomas. Em tempos efetivos de reforma psiquiátrica, resgate da qualidade dos atendimentos ambulatorias e promulgação e disseminação dos CAPS, é fundamental trazer para este campo de discussão coordenado pelo discurso psiquiátrico, as colaborações e contribuições do pensamento de Jung e da psicologia analítica sobre a questão das psicoses e das doenças mentais.

Nosso material de leitura começará com o texto " Conteúdo da Psicose" do Vol.III das Obras Completas de Jung - " A Psicogênese das doenças mentais" e faremos interlocuções com textos de outros autores junguianos como Nise da Silveira, John Perry, Michael Vannoy Adams, Heinrich Karlz Fierz, Wolfgang Giegerich, James Hillman, Walter Melo e outros.

Datas dos encontros:

5 de Fevereiro
12 de março
9 de Abril
7 de Maio
11 de Junho

Duração: 10hs às 13hs
Valor: 120 reais por encontro
Local: Local: Rua Pamplona, 1018, cj.33. Jardim Paulista - metrô Trianon-Masp



2 - Psicanálise e Psicologia Analítica: Um encontro possível

O analista junguiano Murray Stein em artigo entitulado " Solutio and Coagulatio in Analytical Psychology" no livro " The Analytical Life: Personal and professional aspects of being a jungian analyst" ( Sigo Press.1988) comenta que após a separação entre Freud e Jung, caminhos distintos foram realizados por ambos. Para Stein, Freud retirou seu investimento libidinal sobre Jung e o lançou sobre novos objetos ( Ferenczi), porém Jung reprimiu Freud fazendo com que, consequentemente, a psicanálise se tornasse a sombra da psicologia analítica. Murray Stein aponta que o fruto desta repressão sobre a psicanálise é uma visão inteiramente distorcida por parte dos junguianos do que realmente é a teoria psicanalítica. Ele continua e comenta que as únicas e raras referências feitas a Freud e a outros autores psicanalíticos possuem uma única função: servir como contraste aos pontos de vista da psicologia analítica a fim de confirmar a ela própria.
O objetivo deste seminário é , a partir do ponto de vista de Murray Stein, buscar suspender este recalque à psicanálise e procurar definir qual a visão que os junguianos possuem sobre Freud e a psicanálise.
Podemos considerar que este movimento que propomos não é inédito, considerando alguns exemplos:

A intensa e profícua relação do analista junguiano Michael Fordham com o pensamento e a teoria psicanalítica de Melanie Klein. Fordham é um dos que se atrevem a suspender o recalque à psicanálise ao se propor a trabalhar com os "temas psicanalíticos" da infância e da transferência.
Autores pós-junguianos como Paul Kugler, Brigitte Allain-Dupré e Stanton Marlan que fazem interlocuções com o pensamento de Jacques Lacan e o analista junguiano Greg Mogenson com suas articulações sobre Histeria junto ao pensamento do psicanalista Christopher Bollas.
A histórica conferência ralizada pelo analista Junguiano francês, Pierre Solié, membro da Sociedade Francesa de Psicologia Analítica entitulada " O Pai na mitologia Grega e especialmente na Teogonia de Hesíodo- Pai Animus, Pai- Anima". Esta conferência, disponível na Revista Junguiana , volume 5, é um perfeito exemplo de articulação entre conhecimento mítico, teoria junguiana e conceitos lacanianos como os quatro discursos e o significante da falta do Outro.
O Seminário deseja , através do estudo de textos freudianos e lacanianos, propiciar uma aproximação maior dos conceitos que fundam a psicanálise e , deste modo, recuperar a possibilidade de troca teórica e intelectual entre estas duas escolas de pensamento sobre o inconsciente: psicologia analítica e a psicanálise.
A intenção que rege o seminário não é antagonizar com a psicanálise e sim, pensar de " modo junguiano", os temas e lugares onde a psicanálise já habita.
Neste sentido, o nome " Jung" será trabalhado como um primus inter pares ao lado de outros nomes com o Freud, Lacan, Klein, Winnicott e outros.

Começaremos com o estudo das estruturas psicanalíticas da neurose - Histeria e Neurose Obsessiva. Nesta vertente, o objetivo é estudar como se opera o que Freud denominou " a escolha da neurose" pelo sujeito assim como a diferenciação entre o diagnóstico médico - orientado por procedimentos técnico-mensuráveis - e o diagnóstico psicanalítico que se sustenta exclusivamente na palavra ( discurso) e na surgimento da transferência.
Neste primeiro encontro, proponho a leitura em conjunto do texto de Jacques Alain Miller chamado " O Método psicanalítico" ( " Lacan elucidado" Ed. Zahar).
O texto se subdivide em 3 seções:

a) Diagnóstico e localização subjetiva ( avaliação clínica e subjetivação)
b) Introdução ao Inconsciente ( Retificação)
c) Respostas e questões em aberto

Datas:


5 de Fevereiro
12 de março
9 de Abril
7 de Maio
11 de Junho

Duração: 14hs às 17hs
Valor: 120 reais por encontro
Local: Local: Rua Pamplona, 1018, cj.33. Jardim Paulista - metrô Trianon-Masp






3 - Revisioning Psychology - O Patologizar
Seminário sobre a Psicologia arquetípica de James Hillman


Neste seminário, avançaremos na leitura da obra fundamental de James Hillman: "Revisioning Psychology". Após termos lido o capítulo “Personificar”, começaremos a estudar uma das principais idéias da Psicologia Arquetípica, ou seja, o Patologizar. Estudaremos o contexto que permitiu a Hillman criar esta idéia fundamental para o trabalho de fazer – alma como proposto por ele. O patologizar surge como um antídoto frente a ênfase quase religiosa a favor da saúde e da totalidade que contaminavam o ambiente psicológico junguiano no final da década de 60 e início dos 70. Para Hillman, o patologizar não se confunde com o patológico, visto que é umas das formas mais legítimas e particulares da alma apresentar suas imagens. Destacaremos através de um olhar retrospectivo e histórico que o patologizar sempre esteve presente na história da criação da Psicologia Arquetípica através dos inúmeros textos onde Hillman apresentou suas imagens sobre esta idéia como: traição, masturbação, morte, depressão, pânico, velhice e a guerra.
A questão que pretendo lançar ao grupo é: Diante do cenário atual em que atravessamos, onde todo sofrimento psíquico torna-se patológico, como a noção de " patologizar" pode ajudar a nos re-posicionarmos de modo ético e clínico frente a esta arbitrariedade? Pode haver sofrimento psíquico sem a marca do patológico? Toda dor deve necessariamente ser uma dor patológica? Queremos discutir o "patologizar", como proposto pela psicologia arquetípica, ser a marca de uma nova possibilidade de aceitação e acolhimento para estas legítimas experiências da alma: tristeza, depressão, melancolia, tédio, apatia, desãnimo, todas as dores do existir.
Se a clínica sustentada pela Psicologia Arquetípica não se sustenta em nenhum ideal de " vida saudável" ( esta é uma prerrogativa dos médicos, nutricionistas, academias de ginástica, etc...), criar espaços para a manifestação do "patologizar" torna-se condição sine qua non para o exercício deste trabalho psicológico.

Resumo do último encontro em 2009 de nosso seminário:

A incompatibilidade da expressão ' tratamento psicológico" ´para Hillman na medida que são termos que se cancelam mutuamente / Fantasias criam realidade e moldam nossos hábitos, pensamentos, idéia e afetos / a relação do analista com o pathós do paciente / a interpretação heróica como defesa frente ao desconhecido presentificado pela imagem/ como estabelecer uma relação marcada por Eros pelo Pathós do outro? / A necessidade de provocar a ausência e deslocamento dos narcisismos para que a alma possa fazer a sua epifania / o " Fazer alma" como possibilidade de esvaziar a rigidez dos sentidos cronificados / " Deixar a alma dar as regras e seguí-la" - Dictum da Psicologia Arquetípica / Quantos enredos um analista possui em sua alma? / o fracasso da linguagem espiritual-transcendental e médica-ortopédica diante das imagens da alma / qual linguagem é tributária da alma? / o analista e o verbo poético-imaginativo / A que Deus devo prestar homenagens? / Eros, Dioniso e Hermes X Hera, Atená e Apolo/ A aceitação incondicional e irreversível da alteridade das imagens do patologizar /Aceitá-las como são é a prática da renúncia da intenção de compreensão, entendimento, tratamento ou supressão.


OBS: Como atividade paralela ao nosso estudo, assistiremos ao DVD do Seminário proferido por James Hillman em dezembro do ano passado ( 2009) cujo tema foi " Jung e a Imaginação ativa". Neste Seminário, Hillman se dedicou a examinar imaginativamente o recém lançado " Red Book" de Jung a fim de exemplificá-lo como atitude ética e estética de Jung diante da autonomia das figuras e imagens do inconsciente.

Datas:

6 de Fevereiro
13 de março
10 de Abril
8 de Maio
12 de Junho


Duração: 10hs às 13hs
Valor: 120 reais por encontro
Local: Local: Rua Pamplona, 1018, cj.33. Jardim Paulista - metrô Trianon-Masp



Coordenação:Marcus Quintaes
Psicanalista Junguiano.
Fundador do projeto “ Rubicão: Travessias Junguianas”. Rio de
Fundador do grupo Himma – Estudos em Psicologia Imaginal (http://www.himma.psc.br/). SP
Membro da International Association for Jungian Studies ( IAJS).
Coordenador do Curso de Extensão “ Jung e os Pós-Junguianos” no Rio de Janeiro junto com Henrique Pereira.
Coordenador de Seminários sobre o pensamento Pós-Junguiano e a Psicologia Arquetípica de James Hillman no Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades.

Informações:

marcusquintaes@uol.com.br
(21) 25435006

domingo, 4 de outubro de 2009

The Red Book: O Rubicão Particular de Jung





O historiador Sonu Shamdasani, coordenador do projeto Philemon Foundation ( http://www.philemonfoundation.org/), brinda a comunidade junguiana internacional com mais uma trabalho de inestimável valor: a publicação do, até então, inédito Livro Vermelho de Jung.
O livro será publicado em Outubro deste ano e faz parte do ambicioso projeto da Philemon Foundations em trazer ao público textos, seminários, cartas e escritos inéditos de Jung alcançando o incrível número de 30 volumes a ser incorporados às obras publicadas de Jung ( as Obras Completas possuem 21 volumes) num prazo de 30 anos.
O Livro Vermelho
Após o período de separação da relação intelectual com Freud, Jung atravessou um delicado e importante momento psicólogico que nomeou como " Confronto com o inconsciente". Foi durante a travessia deste Rubicão particular que desenvolveu algumas das suas principais teorias como inconsciente coletivo, os arquétipos, tipos psicológicos e o próprio processo de individuação. Jung também amplia o conceito de psicoterapia ao pensá-la não apenas como uma prática relacionada com o tratamento da patologia para poder ser considerada como um meio de reconexão com a alma e à recuperação do sentido da vida. No centro desse trabalho estava o lendário Livro Vermelho (Red Book). O livro vermelho é um in-fólio encadernado em couro vermelho e contém as fantasias escritas e pintadas por Jung mas sob uma forma e uma linguagem elaboradas, escritas em caligrafia gótica, à maneira dos manuscritos medievais. Embora Jung considerasse o Livro Vermelho, ou Liber Novus (Novo livro) ser um dos lugares centrais para trabalhar e compreender sua obra, ele permaneceu inédito até os dias atuais e não disponível para estudo e invisível para o público em geral. A obra pode ser melhor descrita como um trabalho de psicologia em forma literária e profética. É possivelmente o mais influente trabalho inédito na história da psicologia. Sua publicação é um marco que inaugura uma nova era para a compreensão da vida, da obra de Jung e dos estudos junguianos.
A biógrafa Deirdre Bair em seu livro " Jung- Uma biografia" comenta:
" Nele ( O livro Vermelho"), Jung trabalhou com desenhos generosos ilustrando suas fantasias, acompanhados de textos interpretativos escritos em tinta preta fina e uma caligrafia inventada por ele, que parecia uma mistura de gótico e irlandês", " uma caligrafia monástica de letras pretas que anotaram seus sonhos mais importantes desde 1913", todo ilustrado com " desenhos perturbadores, realmente malucos".
Segundo a biógrafa, escrever o Livro Vermelho e os Sete Sermões aos Mortos serviu a uma decisão muito importante para Jung, ou seja, à decisão de pôr fim aos anos de concentração em seu inconsciente e se envolver no mundo em geral. Diz a escritora: " As fronteiras da Suiça agora estavam abertas, depois de terminada a guerra, e o auto-imposto isolamento criativo de Jung estava chegando ao seu fim natural. Sua vida pessoal e pública sofreu uma guinada, quando seu principal objetivo passou a ser como dar às suas teorias uma forma que as tornasse acessíveis ao mundo."
Em " Memórias, sonhos e reflexões", Jung comenta:
" O livro Vermelho contém a maioria das mandalas que desenhei. No livro vermelho, tentei o ensaio ineficaz de uma elaboração estética das minhas fantasias , mas não o terminei. Tomei consciência de que não me expressara numa linguagem adequada e de que ainda devia traduzí-la. Assim, pois, renunciei a tempo à " estética" e me concentrei seriamente na compreensão indispensável.
(...) Senti a urgência de tirar conclusões concretas dos acontecimentos que o inconsciente me havia transmitido, e isto se transformou na tarefa e conteúdo de minha vida".
" A elaboração estética do Livro Vermelho foi-me necessária, por maior que tenha sido a irritação que às vezes me causou; através dela cheguei à compreensão da responsabilidade ética em relação às imagens. Esta atitude influenciou a conduta de minha vida de modo decisivo.
Compreendi que nenhuma linguagem , por mais perfeita que seja, pode substituir a vida".

Marcus Quintaes