
O trabalho pretende discutir estas questões teóricas e usar como ilustração três cenas “clínicas” extraídas de textos nos quais James Hillman aparece como protagonista de seu próprio método.
"Quem passa o Rubicão não pode voltar atrás" — C.G. Jung


OBJETIVOS: Estudar os fundamentos da prática analítica, a começar pela interpretação dos sonhos, segundo o enfoque de C.G. Jung e de seus seguidores. O trabalho com os sonhos é um dos pilares da análise junguiana. Jung afirmou a diversidade de funções e sentidos dos sonhos: sonhos são auto-retrato da psique, sonhos são compensação de uma situação consciente, há sonhos pessoais e sonhos arquetípicos, sonhos devem ser examinados preferencialmente em série, o papel da amplificação etc. As ideias de Jung sobre o papel dos sonhos na psique humana são um precioso instrumento de trabalho para o psicoterapeuta de qualquer vertente.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA:
Seminário sobre análise dos sonhos (C. G. Jung)
Seminário sobre sonhos de crianças (C. G. Jung)
Da essência dos sonhos [vol. 8] (C. G. Jung)
Problemas metodológicos na pesquisa de sonhos (J. Hillman)
O sonho e o mundo subterrâneo (J. Hillman)
DIA/HORA: Três quintas-feiras por mês, de 20h00 as 21h20 – início 7/10/2010
DURAÇÃO: Do dia 7/10/2010 a 17/12/2010, podendo ser retomado no ano seguinte em data a ser marcada .
LOCAL: R. Martins Ferreira, 44 (Botafogo) - Rio de Janeiro (RJ).
PÚBLICO ALVO: Psicólogos, psicoterapeutas, estudantes de psicologia e demais interessados.
INVESTIMENTO: 120 reais (mensalidade).
INFORMAÇÕES E INSCRIÇÃO: (21) 9192 4430
COORDENAÇÃO: Henrique Pereira - Psicólogo clínico, mestre em Psicologia pela UFRJ, doutor

Segundo os hindus, o mundo em que vivemos é um sonho de Brahma. Para os aborígines australianos, passado, presente e futuro não apenas existem
A trama de A Origem se desenvolve sobre o que se costuma denominar “sonho lúcido”. Trata-se do sonho no qual o sonhador sabe que está sonhando. E por se achar num mundo de sonho, ele pode fazer coisas inimagináveis para quem está desperto, como voar ou transformar os objetos ao seu bel prazer. Sonhos lúcidos não são ficção científica; são fatos vivenciados por inúmeras pessoas e tema de pesquisas de universidades respeitadíssimas, como Stanford, nos EUA.
Voltemos à película. Dom é contratado por Saito (Ken Watanabe), um poderoso empresário japonês, para inserir uma ideia no inconsciente do sonhador (diferentemente do furto de ideias, como estava acostumado a fazer). A vítima, Robert Fischer (Cillian Murphy), é o filho de um empresário rival de Saito, que se acha no leito de morte. O filho será em breve o herdeiro de um poderoso conglomerado. Saito deseja eliminar a concorrência, inserindo no inconsciente de Fischer a ideia de que ele deve dividir os negócios do pai.
Para levar o empreendimento adiante, Dom pede ajuda a seu pai, Miles (Michael Cane), que lhe indica a jovem Ariadne (Ellen Page) para ser a arquiteta do sonho a ser desenvolvido na mente do milionário dorminhoco. Dom, Ariadne, Saito e outros comparsas então se unem para invadir o subconsciente de Robert Fischer. Não fica claro, entretanto, como uma pessoa ou várias entram no sonho de outra, como um sonho pode ser compartilhado, tornando possível o contrabando. Trata-se sem dúvida de licença poética para tornar a trama viável.
Uma vez no inconsciente de outra pessoa, o invasor se depara com “defesas”, nas forma de pessoas armadas, guarda-costas, que servem para proteger o sonhador. Uma ideia similar foi formulada por Freud há mais de cem anos, para quem haveria uma espécie de censura (ou censor), cuja função seria a de não permitir que desejos inconvenientes emergissem durante o sono do sonhador, fazendo-o despertar.
O ponto mais interessante é que, para que uma ideia estrangeira seja aceita pela psique do sonhador, ela tem de se articular com outras ideias do próprio sonhador. Caso contrário, será rejeitada como um corpo estranho no organismo. Dom e sua gangue descobriram que Robert e o pai não se davam muito bem. O filho sentia-se rejeitado pelo pai. Um caso clássico de complexo paterno, segundo a psicologia junguiana. A nova ideia, para então ser integrada e agir sobre o psiquismo do sonhador, teria de associar-se a este complexo. A nova ideia – “dividir os negócios do pai” – era introduzida no sonho numa situação em que o pai pedia ao filho que não o imitasse, mas fosse ele mesmo, ou seja, não deveria repetir o que pai fizera. Aderida ao antigo complexo paterno, a ideia nova poderá então surtir efeito.
Paralelamente, há o drama pessoal de Dom, acusado de matar Mal (Marion Cotillard), sua esposa. Esta tinha cometido suicídio porque Dom havia lhe implantado o pensamento de que aquele mundo não era real, que a verdadeira realidade era “outra”. Isto porque os dois haviam se perdido juntos num nível profundo de sonho, alheios ao mundo de vigília. Apesar de morta, Mal continuava uma figura viva no inconsciente de Dom, interferindo em seus sonhos; queria forçá-lo a juntar-se a ela, no sonho ou na morte. A figura de Mal pode ser aproximada ao que Jung chamou de anima. A anima é o inconsciente do homem personificado como mulher e sentido como humores perturbadores. A anima é frequentemente vivida como ilusão que obscurece o juízo. Véu de Maya. Mas é também o fator que confere alma, beleza e animação às coisas. Femme inspiratrice, a anima é o sopro de criatividade inconsciente que fecunda o espírito. Femme fatale, ela é a amante ciumenta que destrói relacionamentos. Mal quer Dom para si. Por isso faz de tudo para atrapalhar suas intenções conscientes, seu “trabalho” de contrabandista de sonhos. É ela quem arrasta Dom para os níveis mais profundos de sonho. Mal é o elemento de incerteza irredutível e incontrolável no psiquismo humano. Mesmo com arquiteturas oníricas pré-fabricadas e sedativos high-tech, a alma, como anima, não se deixa domar, desfazendo a fantasia de objetividade plena do ego racional e instrumental.
Num outro plano, sociológico dir-se-ia, o filme aborda metaforicamente as invasões psíquicas a que todos estamos sujeitos. Ideias se espalham por contágio. Ideias são como daimones, que nos possuem. Na modernidade líquida em que vivemos somos constantemente bombardeados por reclames e injunções consumistas: essere consumire est. Políticos populistas, ditadores e líderes religiosos fundamentalistas, é claro, também espalham sua ideologia. Fico imaginando o que o velho Foucault, com seu jeito ligeiramente paranóico, diria deste filme se estivesse vivo: já não basta quererem domesticar nossos corpos e nossas consciências, agora querem dominar nossos sonhos!
Que então nos impede de sucumbir totalmente a tal blitzkrieg ideológica oriunda de um poder que, a um só tempo líquido e efetivo, às vezes não sabemos sequer com certeza de onde vem e de que é feito? Que em nós resiste bravamente ao assalto de nossos sonhos? Eu diria que é a nossa “Mal interior”. A anima, esse fator de perturbação da ordem consciente vigente, que nem mesmo os contrabandistas de sonho da vida conseguem conter.
Henrique Pereira

Objetivos
A psicologia analítica desenvolvida por C. G. Jung é uma teoria psicológica de grande valor, capaz de fornecer subsídios conceituais para a reflexão e investigação de vários fenômenos da vida contemporânea.
As ideias de Jung, assim como as revisões e os desdobramentos realizados pelos autores pós-junguianos, percorrem uma variedade de temas que hoje se mostram extremamente relevantes, como por exemplo: a função criativa do inconsciente, o sonho como fator de auto-regulação da psique, a busca da diferenciação entre o conceito e os fenômenos da imagem e do símbolo, o exame dos complexos culturais que caracterizam as diferentes sociedades, a indissociabilidade entre natureza psíquica e cultura, os arquétipos como esquemas psíquicos formadores de subjetividades, o resgate da função da contratransferência na clínica das neuroses e a imaginação como faculdade primária da atividade psíquica.
Depois da experiência bem sucedida de dois anos organizando e ministrando o Curso de Extensão Jung e os Pós-Junguianos, decidimos aperfeiçoar o formato, modificando parte de seu conteúdo. As novidades aparecem sobretudo nos módulos 3 e 4, onde passamos a destacar a contribuições da psicopatologia junguiana e a discutir as relações entre psicologia analítica, arte e humanidades.
Com o objetivo de continuar afirmando a originalidade, potência e atualidade do pensamento de Jung é que oferecemos este novo Curso de Extensão Estudos Junguianos Avançados.
Módulos
1. Fundamentos da psicologia analítica de C. G. Jung
Jung e seu tempo. Uma breve história da psicologia analítica: os anos psiquiátricos, o encontro com Freud e a criação da psicologia analítica. A psicologia analítica depois de Jung. As principais escolas do pensamento junguiano na atualidade: clássica, desenvolvimentista e arquetípica. Os conceitos e proposições fundamentais da psicologia de C. G. Jung: complexo, arquétipo, símbolo e processo de individuação, o trabalho com sonhos, imaginação ativa e a alquimia como metáfora dos processos psíquicos.
2. As escolas de psicologia arquetípica e desenvolvimentista
James Hillman e a "revisão" da psicologia junguiana. O retorno à ideia de alma. Politeísmo e metáfora. Da metafísica dos arquétipos à fenomenologia das imagens. A base poética da alma. O retorno a Anima Mundi (alma do mundo). A Escola Desenvolvimentista e sua aliança com a psicanálise inglesa. A Psique da criança. As contribuições teóricas e clínicas de Michael Fordham. O autismo como desordem do self. Aproximação da teoria dos arquétipos com a teoria da evolução. Samuels e a psique plural.
3. Psicopatologia e prática clínica
Contribuições junguianas à psicopatologia e suas implicações sobre o trabalho clínico. Jung e a clínica das psicoses. O Resgate do sentido nas produções delirantes. Os deuses como doenças: a psicopatologia de uma perspectiva arquetípica. As estruturas do caráter segundo uma abordagem arquetípica e desenvolvimentista. A clínica junguiana da criança e do adolescente. Individuação na infância e o adolescente entre a Persona e a Anima. As relações entre neurociência e psicopatologia: avanço ou reducionismo?
A relação da psicologia analítica com literatura, poesia e cinema. O diálogo de Jung com os trabalhos de Pablo Picasso e James Joyce. A cura da cisão estética-ética na Psicologia Arquetípica. Cinema como palco de complexos. Projeção psíquica e projeção fílmica. As viagens de Jung: um suíço em busca do “primitivo” e a Africa como um dos nomes do incosciente. A teoria dos complexos culturais como instrumental teórico para o estudo dos grupos e das nações.
CARGA HORÁRIA: 40 horas.
DURAÇÃO: 4 meses (aulas de 5 horas cada, aos sábados).
INÍCIO: 28 de agosto de 2010
CRONOGRAMA:
Agosto - 28
Setembro - 11 e 25
Outubro - 2 e 30
Novembro - 6 e 27
Dezembro - 4
HORÁRIO: das 14h às 19h.
LOCAL: Rua Jardim Botânico, 674 cobertura (Rio de Janeiro).
PÚBLICO ALVO: psicólogos, estudantes de psicologia e demais interessados.
INVESTIMENTO: quatro parcelas de R$230,00
INFORMAÇÕES PELOS TELEFONES: (21) 2543-5006 e (21) 9192-4430.
O curso fornecerá certificados para os participantes com, no mínimo, 75% de frequência.
Vagas limitadas.
Curso organizado e ministrado por:
MARCUS QUINTAES
Psicanalista junguiano, membro da International Association of Jungian Studies, membro fundador do grupo Himma: Estudos
HENRIQUE PEREIRA
Psicólogo clínico, Mestre em Psicologia pela UFRJ, Doutor